domingo

Camisa 9, nota 10


Torcedores do Flamengo estão merecendo não a nota 9, número que escolheram para a camisa de Adriano, mas sim a nota 10, que é o número que o jogador quer usar. Quanto a isso não há dúvida: a nota da torcida do Flamengo é 10. Pelo bom gosto e pela sabedoria da escolha. Sabedoria e bom gosto que estão a cada dia mais distantes do nosso futebol. E que a torcida rubro-negra mostrou.

Portanto, o resultado certo da promoção feita pelo Flamengo é este: camisa número 9; torcida nota 10.

A camisa 9 é a cara do Adriano, embora, é claro, ele não saiba. O atacante do Flamengo é o número 9 típico, pois encarna o que há de mais parecido no futebol moderno com o antigo e clássico centroavante.

Mas há outra causa fundamental para a nota 10 que a torcida e a escolha merecem. É a sua simplicidade. Sua ausência de novidade ou de modismo. Seu respeito à tradição do futebol e do clube. Ou seja: o centroavante com o seu característico número 9, numa época em que os próprios jogadores, com a conivência das diretorias dos clubes (tão alienadas quanto eles), adoram usar os números 27, 33, 59, 93, 235 - e assim por diante. Eles acham essa novidade (ou esse modismo) algo absolutamente genial.

Como se não bastassem tantas coisas que estão a desvirtuar o futebol brasileiro: violência de torcidas e jogadores; divisões de base formando brucutus em vez de craques; técnicos com pose de responsáveis pelo destino da Humanidade; cartolas dizimando as finanças de seus próprios clubes, tanta coisa e - como se não bastasse tudo isso, os times no campo parecem equipes de basquete na quadra. Números 27, 31, 67, 99, 100, etc, etc...

Pois agora eu faço uma perguntinha a vocês - jogadores, leitores, torcedores e tudo mais: por acaso sabem de algum jogador de futebol que tenha se celebrizado, digamos, com o número 45 nas costas?

Ou com o número 29?

Ou com o número 33?

Conhecem alguma camisa com esses números - ou seu proprietário - que tenha entrado para a história do futebol?

Pois é.

Temos agora, entre tantos outros exemplos, o caso do competente lateral-esquerdo André Santos, recém-chegado à seleção brasileira e campeão da Copa das Confederações. Na seleção, usa o número 16. Tudo bem: é número de reserva, mas é número de time de futebol. E seu número no Corinthians qual é? Ah, no Corinthians pode ser diferente: seu número é 27.

E por que pode ser diferente no Corinthians?

Ou no Vasco?

Ou no Internacional?

Ou no Cruzeiro?

Pois os torcedores do Flamengo acabaram de mostrar sabedoria e souberam mostrar aquilo que ainda cativa as torcidas, que as atrai, que as desperta, que as seduz: um belo centroavante com o número 9 dos centroavantes.

Ou até com o número 10 que Adriano prefere, vá lá. São ambos números familiares ao futebol e familiares a ela, torcida - torcidas de todos os clubes. São números e camisas que têm a ver com os torcedores porque alguma vez já os fizeram chorar ou os fizeram aplaudir na arquibancada.

Por outro lado, alguém guarda aí a recordação de uma camisa 48?

[Coluna: Fernando Calazans - O Globo/Ag. Fla]

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