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Cuca: 'Quero pedir desculpas à Ana Paula'



Foi no Botafogo, seu rival deste domingo na final da Taça Rio, que o técnico do Flamengo, Cuca, viveu um dos momentos mais dolorosos da carreira: a eliminação na Copa do Brasil de 2007, diante do Figueirense, no Maracanã, num jogo que ficou marcado pela polêmica da arbitragem. A bandeirinha era a musa Ana Paula Oliveira, que revoltou os alvinegros com a anulação de dois gols por impedimento. Hoje, dois anos depois daquele episódio, o técnico trocou as críticas por elogios e até um pedido de desculpas à auxiliar, ao ser entrevistado pela própria Ana Paula, por e-mail, a convite do ‘Ataque’. Um desafio e tanto para a bandeirinha, que cursa o último ano de Jornalismo e já trabalha como apresentadora na rádio CBN Campinas e num programa da CNT.

Ana Paula: Como jogador, você atuava na posição de meia. Hoje, no Brasil, qual é o jogador que merece destaque jogando nessa posição?
Cuca: Sinceramente, há pouquíssimos jogadores que atuam hoje como ponta de lança, para dar aquela estocada, vir de trás, com força, como eu gostava de entrar. Acho que esse menino do Botafogo está fazendo bem isso, o Maicosuel; o Souza, que está no Grêmio; e o D’Alessandro, mas ele é uma característica mais armadora.

Sua passagem pelo Flamengo foi um tanto discreta, em 2005. Qual lição você tira daquele ano e traz para o Flamengo de hoje?
Paciência. Essa é a palavra-chave, meditar, não desistir nunca. Saber que aqui, quando se pensa que está tudo calmo, não está. E quando se pensa que vai entrar em ebulição, dá uma calmaria. Eu já aprendi isso, aqui é assim mesmo (risos).

Usar a criatividade no comando da equipe sempre foi um dos pontos positivos na sua carreira. Essa atitude você trouxe dos tempos em que atuava como meia no campo de jogo?
Eu sempre fui muito interessado com a parte tática dos jogos. É importante você ter no grupo alguns jogadores que façam mais de uma função, para um dia em que você for dar aquelas ‘inventadas’, como todo mundo fala, o time consiga fugir da marcação, ser mais criativo, poder jogar melhor.

Nos últimos anos, você tem mostrado seu trabalho em times do Rio e São Paulo. É uma opção pessoal?
Se eu pudesse escolher, seria. Queria estar sempre aqui, porque é o grande eixo. Mas estar dirigindo clubes grandes é sempre complicado, você tem que estar sempre fazendo um bom trabalho, porque a nossa profissão também é momento.

Quando esteve comandando equipes paulistas, houve uma em especial que gostaria de voltar a trabalhar?
Houve, e foi o São Paulo, sem dúvida. Porque é um clube em que você só tem que se preocupar com o campo, os demais setores são todos tranquilíssimos. Ali dentro, ficam as coisas muito facilitadas para a gente.

E das equipes cariocas, gostaria de citar uma em especial? Por quê?
Eu tive problema, agora, com o Botafogo. Aliás, quem teve não fui eu. Foi a torcida que teve comigo e até me pegou de surpresa, de forma negativa. Mas eu não tenho mágoa, o trabalho que fiz no Botafogo foi lindo, pena que não foi coroado com um título. Vou sempre ressaltar esse trabalho bonito que tive, jamais vou falar mal do Botafogo. E, de coração mesmo, eu espero fazer um grande trabalho aqui no Flamengo e, se Deus quiser, ser campeão.

Qual campeonato marcou mais até agora em sua carreira? E qual equipe?
Houve alguns campeonatos, a Libertadores (pelo São Paulo), sem dúvida nenhuma, a fatalidade de perder lá para o Once Caldas, daquela forma, já passado o tempo regulamentar, depois a gente vê que o rapaz estava impedido e ainda caiu no doping (o atacante Jorge Agudelo). E os campeonatos do Rio, eu acho gostoso pela fórmula que têm, são rápidos, perde-se um turno e já começa outro.

O que sentiu ao ver seu goleiro falhar no último minuto do jogo Botafogo x Figueirense? Não vale falar dos meu lances, o.k.? (risos). Li suas entrevistas após o jogo e já sei o que pensa. Continuo admirando você....
Eu quero até pedir desculpas à Ana Paula. Fui levado pela emoção. Na época, eu falei que se ela cuidasse um pouquinho menos dos acessórios particulares e prestasse mais atenção ao jogo... Mas não era de coração, até porque eu acho, que, mesmo sem acessório, ela é muito bonita e querida. Ela sabe disso porque sempre que ela bandeirou jogos meus fomos companheiros de conversar durante os jogos: ‘Oh, acertou, parabéns lá, essa errou...’ Brincamos assim, tamanho foi sempre o meu respeito por ela. E, naquele dia, ela errou, como o meu goleiro errou. Acho que ela sentiu aquele erro, não o dela, mas o do goleiro, porque o dela é interpretativo, não erra porque quer, tem que estar com um olho lá e outro aqui. Às vezes, a velocidade do lance acabou traindo. Mas, com o passar do tempo, sei que ela não fez por mal. Digo que a paciência e o equilíbrio são fundamentais na vida da gente. Hoje eu entendo o lado dela. Quem sabe, se fosse hoje... eu não teria dito aquilo sobre os acessórios dela. Até porque ela, na grande maioria das vezes em que bandeirou em jogos nossos, foi muito bem. Mas a dor que a gente tem em ver o goleiro errar no finzinho é indescritível, não tem como dizer. Dói tudo, lá dentro, no coração, e não volta.

Como é conciliar a vida de técnico com a de pai? Para nós que amamos o futebol, a família é o alicerce, mas, às vezes, fica em segundo plano pelas obrigações com a bola.
É complicado, porque tenho duas meninas, uma de 20 e a outra vai fazer 17 em maio. Não consigo deixá-las sozinhas. Uma já tem 20 e eu a chamo de menina. Eu trago comigo. Não consigo ter uma certeza de longo prazo de trabalho. E elas sofrem. No colégio, elas não podem dizer que são filhas do Cuca. Quando ganha, é beleza. Mas, quando perde, vão querer pegar as meninas a pau. Coitadas, elas são magrinhas. Elas não têm identidade própria e esse é o maior prejuízo que trago para elas. Elas não conseguem ficar em Curitiba, onde é o nosso quartel-general, porque eu preciso da mãe e a mãe precisa de mim. E a gente não pode deixá-las sozinhas.

Você tem pretensão de comandar a Seleção?
Lógico que a gente tem, mas tenho hoje outras pretensões. Seleção é uma consequência do bom trabalho em clubes. O meu momento já foi melhor. Passei por um momento ruim no Santos e no Fluminense e eu aprendi que, quando você não está 100%, é hora de você se recuperar e ficar 100%. Hoje, estou 100%, mas pagando o preço daqueles dois trabalhos que não foram bons. Pretendo ser campeão aqui no Flamengo, esse é o primeiro grande passo que tenho e dar uma sequência aqui. Quanto mais tempo melhor.

[O Dia]

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