quinta-feira

Com ágio e venda casada, ingressos da final ainda podem ser encontrados



Hostels, agências de turismo e sedes de torcidas organizadas são os "pontos alternativos". Ministério Público diz que prática é crime


Os 67.809 ingressos para a final do Campeonato Carioca terminaram oficialmente na terça-feira nas bilheterias. Mas entradas para o Flamengo x Botafogo de domingo ainda são encontrados, com ágio e prática de venda casada, em hostels - albergues descolados -, agências de turismo e em sedes de torcidas uniformizadas, que lucram com o negócio e dão prejuízo aos clubes.

O preço chega a custar quase três vezes mais que o oficial. Ingressos de arquibancada, vendidos originalmente a R$ 40, oscilam entre R$ 75 e R$ 115. Não é raro que os tíquetes sejam de meia-entrada (R$ 20) e os “fornecedores alternativos” alegarem que o ingresso foi adquirido ao preço original de inteira. Nos hostels e agências de turismo o valor inclui guia e transporte de ida e volta entre o estabelecimento e o Maracanã, o que pode configurar venda casada, proibida pelo Código de Defesa do Consumidor. Não há prioridade para hóspedes e turistas. Se o torcedor do Rio chegar primeiro leva.

As torcidas organizadas também têm ingressos para vender e aproveitam para ganhar dinheiro. Uma do Botafogo vende a R$ 40 um ingresso de arquibancada “apenas para sócios”. Mas oferece aos não-sócios a possibilidade de fazer uma carteirinha na hora pagando R$ 10.

- Está errado. No caso dos hostels, o consumidor tem que ter o direito de escolha sobre os serviços apresentados. Se não há alternativa, pode ser caracterizada venda casada, que é crime contra o consumidor. No caso das organizadas, a associação tem que ser livre e espontânea. E também pode ser considerada venda casada – diz Rodrigo Terra, promotor de justiça do Ministério Público do Rio de Janeiro.

A reportagem do GE ligou para alguns hostels. Boa parte deles, como o Che Lagarto, em Copacabana, terceiriza o serviço deixando a cargo de empresas turísticas que espalham pessoas nas filas das bilheterias para adquirirem o maior número possível de ingressos. O Crab Hostel, em Ipanema, afirma que um funcionário consegue ingressos através de um contato direto na Suderj. Fato que foi desmentido pela Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro.

- Não temos nada a ver com a venda de ingressos. Quem cuida disso é a BWA, que tem uma sala no Maracanã e que confecciona os ingressos dentro de uma das bilheterias do estádio – diz Sérgio Du Bocage, assessor de imprensa da Suderj.

A reportagem do GE procurou o gerente da BWA, Fúlvio Nascimento, mas ele não estava disponível para contato.

Clubes ignoram problema. Presidente do Fla assume apoio às torcidas

Mesmo sendo objeto de lucro de outros, os clubes parecem não se preocupar muito com os problemas. Delair Dumbrosck, presidente do Flamengo, assume que dá prioridade às organizadas na hora de vender os ingressos.

- Não posso negar que eles (organizadas) são clientes preferenciais. Eles estão sempre com a gente, em jogos contra o Macaé ou o Figueirense. Não posso deixar de privilegiá-los para vender ingressos para quem só vai à final – argumenta.

O mandatário rubro-negro explica como os ingressos são repassados às torcidas.
- No início da semana, as organizadas pedem uma carga. Chegam no clube com dinheiro vivo e compram ingressos só de inteira, nunca de meia-entrada, com o preço correto. Depois eles repassam aos seus associados – diz.

Sobre os hostels, Delair diz que a venda por um preço muito maior que o da bilheteria é uma prova de que o valor dos ingressos deveria ser maior nos jogos finais.

- Se uma pessoa compra ingresso a R$ 40 e revende a R$ 100 oferecendo alguma coisa a mais, eu não posso fazer nada. Também gostaria de vender ingressos por um preço mais caro, mas não posso. Por mim, a cadeira especial em final deveria ser R$ 500.

O presidente alvinegro Maurício Assumpção, diz que os próprios torcedores do Botafogo se organizam nas filas nos postos de venda para comprar ingressos e nega qualquer participação do clube em repasses.

- O Botafogo nem tem caixa para comprar ingressos e, se fosse o caso, revendê-los a preços mais baratos para as organizadas. Pelo que vejo, são eles que se organizam nas filas para comprar bilhetes, seja de meia-entrada ou inteira.

Inquérito deve propor novas formas de venda de ingressos

O promotor Rodrigo Terra sabe que os problemas com vendas de ingresso são antigos e lembra que o Ministério Público está tentando resolver o problema.

- Um inquérito civil está em andamento no Ministério Público para resolver essa questão de ingressos para as organizadas, pois elas alimentam cambistas, principalmente com repasse de bilhetes de meia-entrada, aumentando o lucro. O MP está concluindo as investigações e vai tomar das instituições um termo de ajuste de conduta para extinguir esse tipo de situação e garantir ao torcedor a distribuição correta de ingressos.

[GE]

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